Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Discriminação

 

 

Há duas formas de discriminar: a primeira, visível, reprovável de imediato e a segunda, indirecta, que diz respeito á prática de actos aparentemente neutros, mas que produzem efeitos diversos sobre determinados grupos.

 

Duas histórias da minha infância, que tão presentes estão ainda, na minha memória.

 

Aos meus 6 anos de idade, deparei com o meu primeiro problema de discriminação social de que tive consciência.

 

A uma menina da minha turma, foi-lhe detectado piolhos. Mais depressa se propagou a notícia que a infestação do tão temido bicho.

 

Pais convocados, ordem dada em casa e para se cumprir, impreterivelmente jamais chegar a minha cabeça à dela, evitar ao máximo o contacto com a menina, pois estaria sujeita a também vir a contrair a infestação, o cabelo teria que ser rapado, para garantir a desinfestação. Além disso ela tinha piolhos porque os pais eram “porcos” e não lhe davam banho, por isso os “criou”.

 

Fiquei perfeitamente esclarecida, que poderia eu contestar com aquele meu tamanho, idade e peso.

 

Dia seguinte aulas e a ausência da menina. Não foi às aulas durante quase uma semana. Não sei se por ordem superior da escola ou por ordem dos pais. Mas voltou e trazia o cabelo mais curto.

 

Observei-a a ela e às outras meninas que se afastavam mais abruptamente do que outras.

 

E a menina afastou-se também para um canto onde ficou, triste, só e envergonhada, pelo seu mau estar.

 

Lembrei-me de quando tinha 4 anos e os meus primeiros pais adoptivos me foram buscar, de ouvir isto da boca masculina: “É feia e piolhosa, olha para a cabeça, até saltam”. E a boca feminina respondeu: “ Não é não, é bem bonita e quando chegar a casa, fica sem nenhum, vais ver”.

 

Eu também tive piolhos, embora nunca os tivesse visto, nem sequer o tamanho e cor. Mas sei que se chamavam piolhos e que habitavam no nosso cabelo. E pelo facto de os ter tido, alguém não me repudiou, porque eu não fiquei como aquela menina estava, ali perante os meus olhos.

 

Sem me importar com mais nada dirigi-me à menina que fez um gesto com o seu braço, mensagem gestual de afasta-te, aquando da minha aproximação e disse: “Não venhas para a minha beira, porque eu tenho piolhos”. Respondi: “Eu também já tive…” e olhamos uma para a outra e sorrimos, depois rimos e brincamos, com apenas uma condição aceite pelas duas, não encostar a cabeça uma à outra.

 

Com o decorrer dos dias que não foram muitos, já mais meninas brincavam connosco. Os pais nunca souberam, ou se sim, nunca o divulgaram.

 

 

Ciclo preparatório na época, tinha eu 10 anos, deparei com o meu primeiro problema de discriminação racial.

 

Um menino, menino em idade, mas enorme em tamanho, tinha 15 anos e todos os dias se sentava num dos cobertos da escola, retirava o seu almoço da lancheira e almoçava sempre sozinho e nunca o vi falar com ninguém.

 

Era de raça negra e transitava naquela escola porque os pais não sabiam ainda onde iam viver. O pai tinha um emprego que fazia mover a família várias vezes, por vários países.

 

Eu nunca tinha visto, que me lembrasse, frente a frente um ser humano de raça negra. Conhecia as raças, mas pela aprendizagem escolar e alguns livros e que se formavam em quatro grupos, raça branca, raça negra, raça amarela e raça vermelha, apesar de me fazer muita confusão essas cores, dado que nunca vi ninguém amarelo, vermelho, preto ou branco.

 

Nessa época era pouco comum uma raça diferente da nossa, a chamada branca.

 

Fiquei atenta e a observar. Cheguei a passar de propósito muitas vezes pelo lugar onde ele se sentava. Sabia os dias que não estaria. Um dia sentei-me ao seu lado e entabulei conversa. Ficamos amigos durante os dois meses mais ou menos, que lá esteve, mas o obvio é que nunca nenhum dos outros colegas se sentou algum dia junto de nós.

 

Nunca souberam o que perderam, porque esse menino de 15 anos, contou-me tantas coisas do seu país e dos países onde esteve, que ainda hoje relembro algumas coisas.

 

Hoje questiono-me porque sendo a única “branca” a sentar-me ao lado de um “preto”, não tive retaliação de nenhum membro da sociedade. Mas penso saber a resposta.

publicado por Sempre seriamente na boa às 23:36
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